Revista A Granja


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O toque feminino no COMANDO sindical

Leandro Mariani Mittmann
leandro@agranja.com

Desde a criação do primeiro sindicato rural no Mato Grosso, apenas sete mulheres ocuparam a cadeira de presidente. E uma delas é Giovana Velke, 33 anos, líder do sindicato de Campo Novo do Parecis. Ela é a segunda geração de um casal de agricultores que há quase quatro décadas deixou o Rio Grande do Sul e se submeteu a morar em barracos para domar o Mato Grosso, onde criaram Giovana e suas irmãs, Aline e Francielle. Hoje a família cultiva 1.500 hectares de soja, milho, milho pipoca e girassol. Além de presidir o sindicato e integrar outras diretorias de classe, Giovana está à frente da maior feira do Centro-Oeste, a Parecis SuperAgro, que teve a nova edição em abril. E como é para uma mulher administrar um sindicato de filiados predominantemente masculinos? “Muitos ficam surpreendidos quando me conhecem, mas por incrível que parece nunca senti nenhum tipo de preconceito ou resistência masculina”. E Giovana nos conta mais.

A Granja — Qual o seu envolvimento e o da sua família com a agricultura?

Giovana Velke — Venho de família tradicionalmente rural do Rio Grande do Sul. Meu pai veio para o município de Campo Novo do Parecis/MT em 1979. Em 1980, voltou a Campinas do Sul/RS, casou com a mãe e os dois vieram embora de mala e cuia. Moraram em barraco de madeira, sem luz, água encanada e a comunicação era por cartas. Quando meus pais chegaram aqui, só havia cerrado e tudo era muito longe e difícil. Eles são pioneiros dessa região e viram o chapadão de soja nascer junto com os grandes conflitos entre pequenos produtores e pistoleiros armados. Enfim, nasci em uma região quase isolada do desenvolvimento.

Cresci brincando no meio da soja com os animais. Meus pais foram abençoados com três filhas mulheres. Sou a mais velha, formada em Administração, e fiz pós-graduação em Gestão em Agronegócios. A irmã Aline é engenheira agrônoma e a Francielle é engenheira florestal. Depois que comecei a estudar, fui me afastando da lavoura, mas o tempo foi passando e as coisas, se modernizando, e em 2008 o pai precisou de ajuda para fazer as pequenas coisas burocráticas do dia a dia, como pagar duplicatas e controlar notas fiscais de entrada e saída, e então comecei a ajudar nisso. Os anos passaram e minhas responsabilidades foram aumentando. Hoje cuido praticamente sozinha da gestão financeira e de RH, além de palpitar nas outras áreas. Depois de 37 anos de muito trabalho suado e coragem dos meus pais, plantamos uma área de 1.500 hectares.

Cultivamos principalmente a soja, o milho, o milho pipoca e o girassol. Estamos na região com maior diversidade agrícola do Brasil. Aqui tudo o que se planta se colhe. Aqui o produtor compreende a necessidade de se fazer a rotação de culturas, além, claro, de buscar diferentes fontes de renda.

A Granja — Como se deu a sua entrada no sindicato? Você tinha histórico de liderança política em tempos de colégio, faculdade...?

Giovana — Sempre participei de diretório acadêmico e comissão de formatura. Depois, por causa dos negócios da fazenda, comecei acompanhar o pai nas reuniões técnicas e reuniões do sindicato. Com o tempo, foram surgindo oportunidades de participar mais ativamente na entidade e, ao mesmo tempo, de adquirir mais conhecimento através de cursos direcionados para lideranças do agro. Assim fui durante quatro anos delegada da Aprosoja/MT (Associação dos Produtores de Soja e Milho do Mato Grosso) e tesoureira do sindicato rural de Campo Novo do Parecis na gestão anterior. Hoje faço parte do Conselho do Fundo de Apoio à Cultura da Soja (Facs) e sou delegada da Aprosoja Brasil. Assumi a presidência do sindicato justamente porque esse cargo exige alguém que estivesse a par do funcionamento da feira Parecis SuperAgro, e naquele momento, por já ocupar a função de tesoureira, eu era a pessoa mais familiarizada com toda a organização da feira. Foi algo bem natural e com consenso de todos os associados.

A Granja — E como é o seu trabalho no sindicato, visto que a maioria das pessoas envolvidas é do sexo masculino? Além de mulher, você é jovem...

Giovana — Desde a criação do primeiro sindicato rural de Mato Grosso só sete mulheres, contando comigo, foram presidentes. E na atual gestão temos outro diferencial: 38% da nossa diretoria eleita é formada por mulheres, ou seja, acho que somos o sindicato de produtores rurais mais feminino do Brasil. Além de sermos muito atuantes no estado, tanto que temos representantes na Federação da Agricultura do Mato Grosso (Famato) e na Aprosoja/MT.

O trabalho da diretoria é voluntário e consiste em estar presente quando necessário para tomar decisões referentes aos diversos assuntos que fogem do cotidiano do sindicato. Participo de muitas reuniões e comissões dentro do município e estados. Parece algo simples, mas exige muita disponibilidade de tempo e paciência, pois as divergências existem em todos os lugares, e precisamos ter sabedoria para conduzir as ações sem prejudicar ninguém, e defendendo os interesses da nossa classe.

A Granja — Algum tipo de resistência, desconfiança ou preconceito que você tenha enfrentado nestes meses que tenha chamado a sua atenção?

Giovana — Realmente muitos ficam surpreendidos quando me conhecem, mas por incrível que pareça nunca senti nenhum tipo de preconceito ou resistência masculina. Pelo contrário, tenho o apoio de vários produtores que acreditam que é necessário fazermos esse trabalho voluntário em prol do desenvolvimento da agricultura, defesa dos interesses do produtor rural e fortalecimento da nossa classe.

A Granja — E quais são os principais desafios, os mais importantes objetivos do sindicato em prol dos seus filiados?

Giovana — O principal desafio, não só aqui, é conseguir que nossos associados participem ativamente das reuniões e decisões, pois hoje todos estão cada vez mais atarefados e comprometidos com outros compromissos. Hoje o mundo do agro está evoluindo com muita rapidez e todo ano novas tecnologias e equipamentos surgem. Leis também são constantemente alteradas ou criadas. Para manter o produtor e seus funcionários atualizados, o sindicato, em parceira com o Senar, no ano de 2015 realizou um total de 107 cursos e foram qualificadas aproximadamente 1.600 pessoas, gratuitamente. Para esse ano esperamos atingir um número maior ainda de trabalhadores rurais qualificados.

A Granja — E como é organizar o Parecis SuperAgro, considerada a maior feira agrícola do Mato Grosso? Como foi a recente edição?

Giovana — Organizar essa feira exige muita dedicação e profissionalismo. Temos uma excelente equipe de funcionários e uma gerente sindical, a Vera Garcia, que trabalha junto à comissão organizadora. Tudo é planejado, orçado e só depois executado. A feira também busca trazer conhecimentos nas mais diversas áreas. Por exemplo, na edição de 2015 tivemos uma palestra com o escritor Augusto Cury, com o tema “Pais inteligentes formam sucessores, não herdeiros”. Esse ano teve palestra motivacional com o ex-capitão do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais) Paulo Storani. Também é tradição da feira trazer um presidenciável. Já passaram por aqui Cristovam Buarque, Aécio Neves, Ciro Gomes e Jair Bolsonaro. Pois acreditamos que é preciso haver uma proximidade maior entre os políticos e a nossa população e essa é uma oportunidade de conhecer suas ideias e mostramos nossa realidade do dia a dia no campo.

Este ano a Parecis SuperAgro recebeu 46 mil visitantes e novamente superou todas nossas expectativas de participação de produtores rurais, pois recebemos visitas de outros municípios, alguns até mais de 600 quilômetros de distância, além de alguns produtores de outros estados. E é isso que realmente importa para nós, pois a feira é planejada para que o produtor pequeno, médio ou grande encontre em um único lugar o que o mundo do agronegócio oferece de melhor em termos de produtores, serviços, tecnologias e informações. Entre 10 e 12 de abril de 2017 acontecerá nossa tão esperada 10ª edição. Será um grande marco para o qual já estamos trabalhando com o objetivo de surpreender nossos produtores e produtoras rurais.

A Granja — E quais são os principais desafios dos produtores de Campo Novo do Parecis, sobretudo para a safra 2016/17? O que mais os preocupa?

Giovana — Penso que o principal desafio é permanecer na atividade para continuar alimentado a população mundial. São inúmeros os nossos desafios, como a dificuldade para captar crédito e o custo do mesmo; custo alto das sementes e péssima qualidade (baixo vigor e germinação) nos últimos anos; a biotecnologia aumentou o custo e não tem sido eficiente, como exemplo o milho BT; defensivos que sejam efetivos no controle das pragas, pois nos últimos anos tivemos que aumentar o volume de aplicações, mas o controle não tem sido efetivo (ferrugem, mosca-branca e lagartas).

Aqui no estado temos grandes dificuldades logísticas e estamos tentando resolver isso criando uma nova contribuição em cima da produção rural, que é Fethab (Fundo Estadual de Transporte e Habitação) regional. Outra preocupação é o questionamento que alguns deputados estão fazendo à Lei Kandir. Uma preocupação de nível nacional são as constantes invasões de terras e as novas demarcações indígenas. A somatória de todos esses fatores pode tornar a atividade agrícola inviável financeiramente e nos obrigar a reduzir produção por falta de renda, o que certamente irá impactar nos preços e na fome da população mundial.

A Granja — Que orientações o sindicato tem dado para esses produtores em relação ao plantio, a custos, a investimentos?

Giovana — Que o produtor esteja atento aos momentos e às oportunidades de travar as vendas e as compras, tentando minimizar a exposição aos riscos (climáticos, comerciais, cambiais, etc.). Ou seja, tentar plantar dentro da janela ideal de plantio, ficar atento aos custos, principalmente às variações cambiais, e neste momento, com custo alto do dinheiro (juros) e dificuldade de renda e de caixa, se possível, postergue seus investimentos.

A Granja — E quais as suas perspectivas para a safra 2016/17, tendo em vista custos, cotações câmbio e, sobretudo, o momento político e econômico pelo qual passa o País?

Giovana — Estamos bastante preocupados com a atual conjuntura, pois essas incertezas políticas e econômicas do nosso País podem influenciar sobremaneira o câmbio. Podem nos inviabilizar em uma só movimentação. Este ano, devido aos problemas climáticos, temos preços atraentes para nossos produtos, porém, já não dispomos de estoque para comercialização. Apenas nos sobra o risco de entrarmos um novo ciclo plantando com custo alto.

A Granja — E quais as suas perspectivas para o agronegócio brasileiro e de Campo Novo do Parecis?

Giovana — O agronegócio é o setor mais dinâmico da economia brasileira, aumentou a contratação de funcionários enquanto os outros setores dispensaram e obteve em 2015 um crescimento no PIB. Contudo, se da porteira para dentro estamos realizando nosso dever de casa, da porteira para fora muito há para se fazer. Trabalho esse que foge à nossa competência e entra nas atribuições do Poder Público e das instituições representativas.

Por isso, precisamos fazer nossa parte e participar de entidades que nos representam, pois só assim é possível melhorarmos alguma coisa. Mato Grosso é um estado muito extenso e de grande potencial econômico. Campo Novo do Parecis é o município com maior diversidade agrícola do Brasil. Aqui cultivamos principalmente soja, milho, milho pipoca (70% de toda a produção do Brasil), girassol, canade- açúcar e gado de corte. Também temos áreas menores de arroz, feijão, sorgo, milheto, gergelim, nabo-forrageiro e crotalária.

E é nesse cenário que o Sindicato do Rural realiza a Feira Parecis SuperAgro, como o objetivo de trazer para perto do produtor os melhores produtos, serviços, informação e conhecimento. Enfim, acho que todos os produtores já fizeram muito pelo Brasil, contribuímos para que nossa nação continue a crescer enormemente e até agora ainda não temos o devido respeito que merecemos. Portanto, precisamos nos unir, focarmos e ajustarmos nossas ideias para sermos mais fortes.

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